Dia do Professor

15/10/2009

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No dia de hoje um beijo grande pra Maria Helena, minha professora particular, que continua tentando, apesar de tudo.

Barak Obama tem menos de um ano de mandato como presidente. Não tem, ao menos que se saiba, nenhuma atuação destacada como agente ou promotor da paz mundial. Mas tem, é inegável, a chave do maior poderio destruidor do planeta. Talvez o prêmio tenha vindo como um pedido: “ameaçe, e faça a paz”.

Calou-se a voz da América.

Movimento Social

07/10/2009

O velhinho

02/10/2009

Contam que em 2047, após longo período (quase 40 anos) de desentendimentos, a República de Canduras e a República Federativa do Boçal reataram relações diplomáticas. O presidente em exercício (o titular, já no seu oitavo ou nono mandato – ninguém lembrava mais – de tanto viajar, acabou fazendo com que a tripulação esquecesse o caminho de volta. Dizem que o avião pousava, o piloto descia, olhava atentamente os arredores, comparava com umas fotos amareladas que tirava do bolso da camisa, sacudia a cabeça, voltava a subir a bordo e dizia desconsolado: não é aqui, excelência. E decolava mais uma vez.) nomeou para a embaixada uma ex-ministra, Dilmi Ruçé, apesar das restrições do Itamaramim. Dizia-se que ela era arrogante e autoritária (grossa mesmo, simplificavam alguns) – sem falar no número do sapato – o que não condizia exatamente com o que se espera de um representante diplomático. E além do mais era da oposição. O argumento definitivo foi dado por um encarregado de negócios, com mais de 50 anos de carreira, que lembrou: e daí? o Celio Armelim não foi ministro das relações exteriores? E o Jotamar Branco, não foi pra Portugal? Sem conhecer a língua? Então?

***

O avião que trazia Dilmi desceu em Tuébemguapa, capital de Canduras, num sábado, próximo ao meio dia. Ela estranhou que não houvesse ninguém a esperá-la no saguão do aeroporto. Mas em meio às poucas pessoas que se postava à frente da sala de desembarque avistou um sujeito baixinho segurando uma folha de papel onde se lia: CEARÁ (assim mesmo: em letras maiúsculas). Aproximou-se dele e perguntou, em portunhol escorreito: el senõr es del Ceará? Pode falar em português mesmo, senhora, eu sou do Maranhão, foi a resposta. Diante do olhar espantado de Dilmi, emendou: é que eu sou taxista e cearense vai pra tudo que é lugar. Volta e meia eu pego um. Até o Belquior, lembra dele?, já andou no meu táxi. Dilmi perguntou quanto o homem lhe cobraria para levá-la até a embaixada brasileira. Converteu em moluscos reais o preço em lempiras que o taxista, que descobriu chamar-se Ribamar (mas pode me chamar de Sir Ney), pediu e descobriu que ia pagar uma fortuna. Mas como não era ela mesma que ia pagar – afinal, pra que servia o cartão corporativo? – topou.

Quando o táxi chegou aos portões (na verdade, ao portão, já que um deles tinha caído ou, mais provavelmente sido arrancado, pensou) da casa onde ficava a embaixada, estranhou que o tradicional escudo de metal com as armas da república estivesse parcialmente coberto com um plástico onde se lia: sacolé 10, cremoso 12. Atravessou o jardim mal cuidado e chegou à porta de entrada. Bateu e não obteve resposta. Bateu mais uma vez, colou o ouvido à porta e ouviu um arrastar de pés e uma voz, quase sumida, que dizia, em tom de comando: calmáte, coño. A porta foi aberta por um velhinho que vestia uma guayabera imunda e um chapéu de cowboy, surpreendentemente limpo, considerando o estado dos trapos que vestia. Um bigode negro lhe emoldurava a boca. Qiuén sos vós? perguntou o velhinho, já lhe dando as costas. Sou a nova embaixadora (Dilmi odiava o termo embaixatriz, era coisa de boiola, dizia) do Boçal em Canduras. E o senhor, quem é? Mas o velho já havia se embarafustado pelos corredores da casa.

Foi encontrá-lo em uma sala com uma placa da porta onde ela pode ler, parcialmente, a palavra Embaixador. Outro plástico, semelhante ao dos portões, tinha escrito: señor Presidente. Uma coleção de chapéus de cowboy, mais de cem, estimou ela, todos brancos, ocupava boa parte da sala. Sobre a escrivaninha, vários frascos de tintura para cabelo, preta. A maioria abertos. Como a sala estava abafada, aproximou-se das janelas e abriu-as. Cerra,
coño, gritou o velho. Dilmi pensou tratar-se de um dos muitos candidatos que o
presidente Lua havia derrotado em suas quase infinitas reeleições, mas o velho
insistiu: cerráte la ventana, coño, la radiacíon! la radiación!

As lamparinas da memória começaram lentamente a acender-se em Dilmi. Aquele era o presidente que queria reeleger-se e foi apeado do cargo, quase 40 anos atrás. Como era mesmo o nome dele: Zaloyo, Zalata? Claro, pensou, como não adivinhou antes? Aquele era Manuel Zelayo, que tinha sido presidente de Canduras, e que ao ser deposto tinha se hospedado na embaixada do Boçal, num caso que rendeu um bocado de discussão diplomática, na época. Aos poucos a situação tinha acalmado, os ânimos serenaram e ninguém mais lembrava do caso. Tampouco interessou saber que fim levara aquele hóspede. E agora ela, Dilmi, tinha a resposta. O presidente Lua, se não estivesse desaparecido, certamente lembraria.

Decidiu conversar com o homem: o presidente Lua lhe manda lembranças, senhor Zelayo. Señor Presidente, coño, foi a resposta. Claro, señor presidente, respondeu ela. O senhor lembra do presidente Lua, não? Claro, ele sempre me dava conselhos, junto com aquele outro, como era mesmo o nome dele? Chuvas ou coisa parecida. O presidente Lua me disse: Presidente, vou lhe dar cinco motivos para resistir. E começou a contá-los nos dedos. Engraçado é que quando ele chegou em quatro, parou. Nunca fiquei sabendo qual era o quinto conselho

***

Pra encurtar: contam que Dilmi e Zelayo conviveram mais dois anos na casa. Ele indo periodicamente à sacada incitar o povo, que nunca estava lá, à revolta e a desobediência civil. Ela arranjou um cachorro, só pra ter em quem mandar. Dizem que ele morreu, mas a verdade é que de vez em quando some um chapéu da sala e mais um vidro de tintura aparece aberto. Quanto a ela, foi transferida para Paris. Com o limite do cartão corporativo aumentado, é claro.

Não dá pra acreditar em tudo, mas é o que dizem.