Panvel Parmacovitch Ievtuchenko acordou com dor de cabeça, nauseado e sentindo-se sufocar. Não admitia atribuir às doses de vodca da noite anterior, mesmo que tivessem sido mais generosas do que o habitual, seu desconforto. Estava em dúvida. E a dúvida, como bem sabia, tortura, dá náuseas e estrangula. Trouxera-a consigo ao levantar da cama, onde ela se insinuara durante a noite, após o sexo, entre ele, a mulher e a pele que os aquecia.

         Sentado à tosca mesa da cozinha, deixou intocados o pão e a caneca de leite que a cunhada, Ana Dimitrovna, que morava com eles desde a morte do marido, pusera à sua frente com um sorriso que destoava de sua rabugice costumeira. Seus olhos voltaram-se para a porta por onde entrava, vinda do quintal, Vera Dimitrovna, sua mulher e gêmea de Ana. Olhando para uma e para outra, surpreendeu-se mais uma vez com a semelhança física que havia entre as duas. Altura, rosto, olhos, idênticos na forma e na beleza.

Entornou a caneca de leite e colocou o pedaço de pão no bolso do casacão. Levantou-se, apanhou o chicote pendurado ao lado da porta enquanto observava a mulher e a cunhada aos risos e cochichos, com olhadelas disfarçadas em sua direção. Saiu para o frio da estepe. Ele e sua dúvida.

No trenó, dirigindo-se para a aldeia, e à medida que o vento dissipava os vapores do álcool, as imagens da noite anterior vieram à sua mente. Gemendo em cima da mulher, vira algo em seus olhos, numa das raras ocasiões em que lhes dedicara alguma atenção, em anos. Alguma coisa que não sabia precisar. Algo que, tinha certeza, nunca estivera lá. Repentinamente, uma suspeita o atingiu, mais cortante do que o vento frio da estepe. Descartou-a de imediato. Era a sua Veruschka, sim, tinha de ser. Apesar de que o que vira naqueles olhos, sabia agora, fora puro prazer.

 

 

 

Uma resposta to “A dúvida”

  1. Marcia Dreizik Says:

    Robin,
    gostei do teu blog. E o conto A dúvida é sensacional.
    Continua, que, desse jeito, tu vais longe, guri.
    Sem brincadeira, está muito bom.

    Abraço grande da tua colega do Aplicação e, hoje, admiradora dos teus escritos,
    Marcia


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