É domingo. Odeia domingos. Dia de visitar a sogra. Odeia a sogra. Dia de comer o almoço da sogra: macarrão, salada de batatas, carne de panela. Tudo sempre igual, sempre com o mesmo gosto: gosto de ódio. Odeia a comida da sogra. Dia de tomar a latinha de cerveja, uma só, sempre a mais barata, que vem quente. Odeia a cerveja que a sogra lhe serve. Dia de ouvir o mesmo discurso: quando vai arranjar um emprego decente, que não criou a filha para sustentar vagabundo, que futuro pretende dar pro Tavinho? Odeia o discurso da sogra. Quando ela vai entender que vender seguro é um emprego decente? Que convencer alguém que pode morrer amanhã e deixar a família na miséria é uma arte? Então odeia a própria mulher que, de olhos baixos, esmaga as batatas com o garfo sem dar um pio. Por que não o defende? Por que lhe dá razão quando estão em casa sozinhos, e emudece na frente da mãe? Tem saudades do tempo em que o sogro era vivo. A comida não era melhor, mas ao menos o sogro era uma pessoa agradável, interessava-se pelo seu trabalho e, o que era melhor, mantinha a velha calada. Freqüentemente pergunta-se por que agüenta tudo isto. E o pior é que sabe a resposta: pudim de leite. Não pode negar: a infeliz faz o melhor pudim de leite que ele jamais comeu. Quando o doce chega à mesa, sempre perfeito na sua estrutura – jamais a desgraçada errou ao tirá-lo da forma – ele já pode imaginar, mesmo antes de vê-lo fatiado, a consistência exata, a aeração perfeita, a calda escura no ponto certo. Jamais vai confessar: adora o pudim da sogra.
Hoje, particularmente, seu nível de ódio está no máximo. Além da massa grudenta e da cerveja quente, a mulher esmagou as batatas olhando para ele na hora da ladainha, como se apoiasse a jararaca. Não sabe porque não sai da mesa e vai embora. Na verdade, sabe: pudim de leite. Suas papilas gustativas encarregam-se de mantê-lo sentado. Calado, observa a mulher retirar a louça e os talheres usados, o resto da comida, e trazer os potes e as colheres de sobremesa, a sogra abrir e fechar a geladeira e depositar a travessa sobre a toalha, com uma palavra:
– Surpresa!
Mal pode acreditar: mousse de chocolate. Se as facas ainda estivessem ao seu alcance, uma delas estaria cravada no peito da megera, calando aquele sorriso que ele sabe que é de triunfo por tê-lo enganado.
Resignado, apanha a colher e o pote que a mulher lhe alcança. Leva uma colherada à boca e é surpreendido: consistência exata, aeração perfeita, cor escura no ponto certo. Esvazia o pote, odiando o domingo, odiando a comida da sogra, odiando a cerveja da sogra, mas principalmente, odiando-se a si mesmo. Derrotado, estende o pote para mais uma porção.

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