Olha eu aí, autografando o 104 que Contam, ontem, terça-feira 21 de outubro, no Memorial do RGS. Uma festa bonita, onde reencontrei colegas oficineiros e amigos. O conto com o qual participo chama-se Velho Marinheiro, e aí vai:

Velho marinheiro

Luiz Ohlson

         Imóvel, os olhos fixos no teto, o capitão Jean-Jacques de Villemond espera. Sabe que ela não deixará de vir, regular e inevitável como as marés. Sabe também que não será como um vagalhão destruidor, daqueles capazes de provocar naufrágios e fazer soçobrar a mais bem construída das naus. Antes, se fará anunciar eriçando-lhe suavemente a pele, prenúncio do tormento que o espera, como o leve crispar das ondas é o prenúncio das grandes tempestades. Sabe ainda que ao chegar e instalar-se, ela percorrerá todos os seus rios, fazendo de cada órgão um porto, deixando em cada um deles sua carga de sofrimento. O capitão não tem ilusões: ela tomará conta de seus pensamentos, impedindo-o de concentrar suas idéias em nada nem ninguém mais, a não ser nela.

 

Quando ela chega, com aterradora pontualidade, o capitão vê iniciar sua meia hora diária de horror. Como um barco sem leme, que tivesse seu casco arremessado contra as pedras, assim se sente o capitão Jean-Jacques de Villemond. E seus temores, um dia fugazes e imprecisos, são agora reais e cruéis. Como um velho galeão à deriva, impotente à abordagem, é saqueado do pouco que lhe resta de consciência. A respiração se torna difícil, como se, soçobrado, visse a água invadi-lo, roubando-lhe o pouco ar que seus pulmões mendigam.  

 

Só o outro rio, o gelado, percorrendo suas veias com bem-vinda pontualidade, lhe dá a esperança de algum alívio, devolvendo-o, aos poucos, ao lugar que ocupa e ao tempo em que vive. O capitão sente-se agora como uma caravela, ancorada ao largo, velame arriado, balançando lenta ao sabor das ondas. Seus temores, temporariamente afastados, dão lugar à memória de terras e mulheres, visitadas e invadidas. Mas mesmo essas lembranças aos poucos se esvaem, trocadas pelo sono, bendito mergulho em águas cálidas.

        

Seu sono é tomado pela dor, que chega novamente, desta vez sem anunciar-se; e pelo frio, um frio que ele não esperava, e capaz de invadir-lhe músculos e ossos. Aos poucos, une-se a eles uma companhia que o capitão sempre desprezou: o medo. Agora, não é mais nau, galeão ou caravela. É um bergantim com o velame inflado, navegando veloz em direção ao horizonte, surpreendentemente branco e limpo de nuvens. 

 

 Imóvel, os olhos fixos no teto, o capitão Jean-Jacques de Villemond observa a esteira branca que se afasta, definitivamente. 

 

E lá vamos nós

14/10/2008

Capa do 104 que contam, do qual eu participo. Dia 21/10, lançamento no Memorial do RGS, às 19 horas e dia 08/11, sessão de autógrafos da Feira do Livro, também no Memorial, às 20 horas.

Descubro, por um email da Simone, da Nova Prova, que o lançamento do 104 que contam vai acontecer numa terça-feira, dia 21 deste mês de outubro, no Memorial do RGS, às 19:30 horas. Vai nele um conto meu, na minha terceira participação na série 100 e tantos que contam. Mesmo sabendo da crítica aos critérios de seleção, por não serem rígidos, o que poderia resultar – mas não necessariamente resulta – em perda de qualidade, ainda assim mexe com a vaidade e o ego ter o nome, mais uma vez, em letra de forma e capa de livro.