O que Chares Kiefer diz, na condição de patrono da Feira do Livro, não pode ser desconsiderado, aliás, deve ser muito bem pesado e assimilado. E o que ele disse você pode ler aqui. Mas o que ele disse não pode ser considerado apenas por ser a palavra do patrono. Há que levar em conta também as mais de duas décadas de oficinas literárias, o que certamente o preparou para identificar qualidade na palavra escrita. Assim, ao qualificar cinco obras como representantes da nova literatura gaúcha, ele está ressaltando não a qualidade do papel, a beleza da capa, as apresentações bem escritas. Acredito que ele está, na verdade, homenageando cada um de nós, os 14 autores das 5 obras.E ao mesmo tempo nos transferindo uma enorme responsabilidade. Sejamos dignos de ambas, a homenagem e a responsabilidade.

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Trecho de entrevista de Charles Kiefer, concedida em 29 de outubro passado. O destaque em negrito na resposta é meu. Para ler a íntegra da entrevista, clique aqui.

 

O que se espera com a publicação de coletâneas como “104 que contam”  

 

Charles Kiefer – Eu acho que a idéia dos 101, 102, 103 e 104 que contam é absolutamente generosa. Tem que ser meu aluno para entrar no livro e eu somente pergunto se ele quer mostrar o texto dele, esteja bom ou não. É democrático e aberto, para possibilitar que todos possam publicar. É lógico que só faço isso nessa coletânea, nas antologias tudo é trabalhado pacientemente. A última antologia que publicamos, que foi feita pela Editora Nova Prova, chamada de Inventário das Delicadezas, é um livro muito bom, uma das melhores antologias já publicadas no RS. E isso tem diferença, uma coisa é antologia geral onde o que vale é a vontade do novo autor em publicar e outra coisa é uma seleção para fazer uma boa antologia. Acho que esse é um processo, começamos publicando algumas coisas e depois chegamos à obra prima. O que não impede que dentro de uma obra de mais de 100 contos tenha muita coisa boa. A seleção dos 104 que contam foi um pouco mais rigorosa porque ela conta somente com alunos antigos meus, não são só novatos.

 

De onde saiu essa dinheirama toda, hein?

Mapa da feira

31/10/2008

Conforme o prometido, vai aqui o link pro mapa da Feira do Livro. A barraca da Nova Prova, a editora que nos boicota é a 122, em frente à entrada do Bistrô do Margs, próxima ao prédio do Banrisul. Vá até lá e peça o Inventário.   

Estou me engajando na campanha Peça o Inventário na Feira. O inventário é o livro retratado aí em cima, ao lado do convite para o seu lançamento em São Paulo – o Manpituba não é e nunca será nossa fronteira final (o espaço talvez) – e que está sendo, digamos… negligenciado pela editora. Se você quiser participar da campanha, basta aparecer na barraca da Nova Prova – aguarde para breve, neste mesmo blog,  mapa com a localização da nefanda – e pedir o Inventário das Delicadezas. Se conseguir adquiri-lo, faça-o. Você estará levando para casa o produto do esforço e do talento de dez escritores gaúchos que lhe oferecem boa leitura em troca de uns poucos “pilas”. Uma troca justa, convenhamos.

O livro de capa alaranjada que o caro leitor deste blog vê, no centro da foto acima, é o Inventário das Delicadezas, obra a vinte mãos, dez cabeças, muito trabalho e algum talento. A madeira que o sustenta é parte da gôndola nobre de uma das maiores redes de livrarias do país, a Livraria Cultura. Estamos todos de parabéns: os autores Cristina Moreira, Daniela Langer, Emir Ross, Leila de Souza Teixeira, Leonardo Colucci, Lívia Petry, Luiz Ohlson, Nelson Rego, Paulo Juner e Valmor Bordin; sem esquecer, naturalmente, nosso mestre Charles Kiefer, organizador e incentivador permanente. Sim, temos uma editora, é claro. Mas ela procede como se não fizessemos parte de seu catálogo. Logo, não vejo porque promovê-la.

Olha eu aí, autografando o 104 que Contam, ontem, terça-feira 21 de outubro, no Memorial do RGS. Uma festa bonita, onde reencontrei colegas oficineiros e amigos. O conto com o qual participo chama-se Velho Marinheiro, e aí vai:

Velho marinheiro

Luiz Ohlson

         Imóvel, os olhos fixos no teto, o capitão Jean-Jacques de Villemond espera. Sabe que ela não deixará de vir, regular e inevitável como as marés. Sabe também que não será como um vagalhão destruidor, daqueles capazes de provocar naufrágios e fazer soçobrar a mais bem construída das naus. Antes, se fará anunciar eriçando-lhe suavemente a pele, prenúncio do tormento que o espera, como o leve crispar das ondas é o prenúncio das grandes tempestades. Sabe ainda que ao chegar e instalar-se, ela percorrerá todos os seus rios, fazendo de cada órgão um porto, deixando em cada um deles sua carga de sofrimento. O capitão não tem ilusões: ela tomará conta de seus pensamentos, impedindo-o de concentrar suas idéias em nada nem ninguém mais, a não ser nela.

 

Quando ela chega, com aterradora pontualidade, o capitão vê iniciar sua meia hora diária de horror. Como um barco sem leme, que tivesse seu casco arremessado contra as pedras, assim se sente o capitão Jean-Jacques de Villemond. E seus temores, um dia fugazes e imprecisos, são agora reais e cruéis. Como um velho galeão à deriva, impotente à abordagem, é saqueado do pouco que lhe resta de consciência. A respiração se torna difícil, como se, soçobrado, visse a água invadi-lo, roubando-lhe o pouco ar que seus pulmões mendigam.  

 

Só o outro rio, o gelado, percorrendo suas veias com bem-vinda pontualidade, lhe dá a esperança de algum alívio, devolvendo-o, aos poucos, ao lugar que ocupa e ao tempo em que vive. O capitão sente-se agora como uma caravela, ancorada ao largo, velame arriado, balançando lenta ao sabor das ondas. Seus temores, temporariamente afastados, dão lugar à memória de terras e mulheres, visitadas e invadidas. Mas mesmo essas lembranças aos poucos se esvaem, trocadas pelo sono, bendito mergulho em águas cálidas.

        

Seu sono é tomado pela dor, que chega novamente, desta vez sem anunciar-se; e pelo frio, um frio que ele não esperava, e capaz de invadir-lhe músculos e ossos. Aos poucos, une-se a eles uma companhia que o capitão sempre desprezou: o medo. Agora, não é mais nau, galeão ou caravela. É um bergantim com o velame inflado, navegando veloz em direção ao horizonte, surpreendentemente branco e limpo de nuvens. 

 

 Imóvel, os olhos fixos no teto, o capitão Jean-Jacques de Villemond observa a esteira branca que se afasta, definitivamente.